Bem-vindo(a), visitante!    Login | Cadastrar

Passe o mouse na imagem para ativar o zoom
  • O nado, de Amélia Loureiro

O nado, de Amélia Loureiro

Cód. do Produto: DDB930D

Avalie este produto

O nado, de Amélia Loureiro. São Paulo: Córrego, 2018. 96 p.

 

R$ 30,00
QUANTIDADE

Filamentos

 

Não dava mais. A raiva vaza por entremeios, nas margens da boca trancada. Quanto tempo deveria aguardar? A imagem do ônibus vindo em sua  direção se repete à revelia, quando tarde da noite coloca o soutien dobradinho na bancada do banheiro, para amanhã. Planos estratégicos minuciosos custeados por ninguém. Diligências magníficas mínimas em cursos autônomos, mas sem apontar ressonâncias tangíveis.

 

São 4 da tarde. O apito também vigia a hora para cortar o ar acima das cabeças uniformizadas dentro do galpão: fabriqueta fundo de quintal. Subúrbio dentro de uma pequena cidade a perder referência no mapa de um Brasil escuro e perdido no globo inteiro.

 

Acordou cedo, como sempre faz. Tudo é como sempre, do modo a se esperar de como alguém se encontra no lugar em que está.

 

Raiva se vincula a operária. A. A.

O . PE . RÁ . RI . A. 

  1. A.

 

Um pé manco, menor que o outro. De nascença, talvez não seja. Tão esperado: o marido atual na porta do predinho de tijolos aparentes, massa de cor nojenta extravasando eternamente entre eles. O desprazer de fitar estas paredes todos os dias. Crueza.

 

Ele para, observa do portão: o sinal não tocou ainda. Pelo canto, sua boca expele líquido viscoso amarelado; ele sobrepõe a palma e os dedos. Retorna o olhar para o prédio onde Graziela deverá sair a qualquer momento. Mas não. Quem aparece é o supervisor. Caminha em passos certeiros e pesados para o portão gradeado da entrada.

 

–  Já chamamos a ambulância distrital. A máquina de corte do fio inox disparou. Graziela não teve presença de espírito. Não se preocupe,  acreditamos que não deverá perder nenhum órgão.

 

 

 

 

Darli solta a mão do pai e começa uma correria sem rumo a um outro lugar. À sua frente, os barrancos, a rua em erosão.

 

A camisa branca do uniforme se prende no galho daquela árvore, rasga o tecido, sua pele tenra. Segura seu corpo enquanto ele se encontra surpreendido.

 

Cai ao chão. Bate a cara na terra da rua, o mundo girando mil vezes. O estômago nauseia. Não sabe quem é. Tem medo do que aconteceu à mãe.

 

Da narina escapa o filamento. Mancha o pó argiloso. Um cachorro inala o fio rubro quando somente ele, a árvore, a vegetação rasteira, os pedregulhos fazem companhia ao menino.

 

O pai chega sem a ambulância. Darli vira-se de costas. O céu é azul. Sim: quando não tem nuvens. Como agora.

Clique aqui e deixe sua opinião sobre o produto

Nenhuma opinião informada sobre o produto.

newsletter

Cadastre seu e-mail e receba novidades e promoções

email Cadastrar
PagSeguro
Jet e-Commerce
active: D3-EJET-LOJA4 - 2005848 - 121278785 - 121278785